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Nº
21 - Abril / Junho 2008
Desenvolvimento
- Para quê? Para quem?
Marcos
Arruda*
Impactos
da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA)
sobre a vida de
milhares de famílias de pescadores na Baía
de Sepetiba com a
cumplicidade do BNDES e do Governo Federal;
ação cidadã de monitoramento e incidência
sobre o
BNDES e suas políticas; luta por melhores
condições de vida
e trabalho na Zona Oeste do Rio de Janeiro;
arranjos produtivos
locais na Zona Oeste, no espaço compartilhado
da Rede de
Socioeconomia Solidária da ZO; crítica ao
modelo
dominante de desenvolvimento: todos estes assuntos
constituem
campos de atividade do Pacs no momento atual
e são
examinados neste número do Informativo PACS. Eles
têm
um denominador comum: a busca de caminhos alternativos
de desenvolvimento, que tenham como objetivo
a satisfação das necessidades e o desabrochar
dos potenciais
de cada pessoa, comunidade e povo.
Sandra
Quintela esboça os principais
efeitos de um projeto de Pólo
Siderúrgico, liderado pela CSA, que
é um consórcio dominado pela transnacional
alemã ThyssenKrupp, tendo
com aliada a Vale. Um projeto cuja
fachada é de progresso, pois trata
da produção de aço para exportar
com valor agregado o minério
brasileiro. O artigo mostra que
ele está sendo fator de devastação de
uma área de conservação natural, incide
em graves irregularidades laborais
e está pondo em grave risco o
trabalho e a sobrevivência de mais de
8 mil famílias de trabalhadores da
pesca. Márcia Shoo entrevista o pescador
Luiz Carlos, que dá um testemunho vivo do drama
vivido
pelas comunidades populares de Sepetiba. O PACS,
juntamente
com a Fundação Rosa Luxemburgo, levou estas
denúncias
a um fórum de fundações alemãs de cooperação
internacional
em Frankfurt e, junto com representantes dos
pescadores
e do movimento ecológico da região, ao Tribunal
Permanente
dos Povos, reunido em Lima, Peru, em maio de 2008.
Carlos
Tautz mostra como o Estado brasileiro está
modelado
pelo modo de desenvolvimento concentrador, focado
nos lucros e não nas necessidades humanas. Tautz
menciona
o BNDES como principal vetor de financiamento
de
longo prazo, que prioriza crédito para grandes
empresas, inclusive
estrangeiras, e para setores e atividades
altamente concentradoras
de capital, usando sobretudo recursos do Fundo
de Amparo ao Trabalhador (FAT). Tautz acena para a
Plataforma
BNDES, da sociedade civil, como um programa
cidadão
que questiona e pressiona o banco no sentido de
uma
inversão de prioridades e da plena transparência
como obrigação
constitucional, não somente porque os recursos
do
BNDES são públicos, mas também por causa do
amplo impacto
das suas políticas creditícias na configuração
do modo
de desenvolvimento do Brasil.
Leonardo
dos Santos discorre sobre a história da Zona
Oeste da
cidade do Rio de Janeiro, território preferencial
do trabalho de
desenvolvimento autogestionário do PACS junto a
comunidades,
cooperativas e associações de trabalhadoras/es.
Indica
os fatores que hoje atuam para atrair governos e
empresas, inclusive
estrangeiras, a implantar pólos de atividade
industrial na
região, contribuindo para seu desenvolvimento
econômico. Questiona
o fato de tais projetos terem o caráter de
enclaves, desconhecendo
a realidade social e natural da Região e gerando
uma
crescente dívida social e ecológica. Tendem,
pois, a beneficiar
atores externos em prejuízo das comunidades
locais e
do meio natural. O artigo conclui com a menção
da resistência
da população local a este modelo
e a busca de caminhos alternativos
para o autêntico desenvolvimento
socioeconômico e humano
da Zona Oeste.
Robson
Patrocínio conta como nasceu
e se desenvolve a Rede de Socioeconomia
Solidária da Zona Oeste,
uma articulação popular que constrói
algo mais do que crítica e denúncia
– novas relações sociais de
produção e de intercâmbio, fundadas
nos valores da cooperação e
da solidariedade.
Ana
Agostino nos convida a olhar
criticamente o modo de desenvolvimento
dominante no Ocidente
capitalista e compreender que ele tem sido marcado
pelo
aprofundamento das desigualdades e da alienação,
e se sustenta
no mito do crescimento ilimitado da produção e
do consumo
de bens materiais. A tese de Ana é que o próprio
desenvolvimento
é o problema, sendo ele o vetor dos mitos do
crescimento, da produção, do consumo e da busca
desenfreada
de lucros. Ela contrasta tal paradigma com o do
“bem
viver”, da vida humana com dignidade. A nosso
ver, o equívoco
não está no termo desenvolvimento,
que por definição
tem a ver com o desdobramento da consciência e
dos
potenciais inerentes ao indivíduo ou à
coletividade humana
– fundamento do processo evolutivo que constitui
a história
da vida e da nossa espécie. Está, sim, em
identificá-lo com
a acumulação e o crescimento ilimitado da
produção e
do consumo de bens materiais e à busca incessante
do máximo
lucro por atores privados. Para o PACS, o desenvolvimento
econômico e tecnológico só tem sentido se
está
a serviço do desenvolvimento humano e social.
*
Socioeconomista do Pacs.
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