Autogestão nos Territórios: troca de saberes, fortalecimento e resistências

Há dois anos e meio, Celly, Geyza e outras companheiras têm uma rotina que se repete todo domingo. No dia em que comumente as famílias se reúnem em torno de uma mesa farta, elas levantam cedo, ajuntam o que apuraram de feijão, arroz, temperos, verduras e alguma mistura e começam o preparo do almoço coletivo. A cada semana são cerca de 300 refeições saídas da Cozinha Sem Medo, em São Gonçalo.  O tradicional almoço de domingo ganha em dimensão, extrapola o familiar e o privado, vira comunitário e coletivo. Coletivo é, aliás, palavra-conceito-ação muito cara a Stilo e aos demais integrantes do Coletivo Pão e Tinta, grupo pernambucano, nascido e criado na Comunidade do Bode, em Recife. O território está localizado no 5º metro quadrado mais caro do Brasil e, contraditoriamente ou por isso mesmo, mantém um déficit habitacional de cerca de 1.500 famílias.

Em meio às palafitas, cercados pela pressão dos edifícios e da especulação imobiliária, é possível ver os grafites assinados pelo grupo. São jovens, homens e mulheres, criados ali em meio ao verde do manguezal e o roxo dos caranguejos. Enquanto a cerca de prédios avança ao redor, seguem firme construindo barricadas de cores em defesa de uma cidade  na qual possam existir e se expressar.

As duas histórias foram compartilhadas com um grupo de cerca de 30 pessoas que participou da 4ª edição do Curso Autogestão nos Territórios. Indígenas, agricultoras, integrantes de coletivos e movimentos de luta por moradia, em defesa do direito a morar e plantar, a viver bem nos territórios. No último fim de semana, de 29 de novembro a 2 de dezembro, homens, mulheres, jovens e crianças de sete  estados, Rio de Janeiro, Maranhão, Ceará, Pernambuco, Porto Alegre, Bahia e Minas Gerais, estiveram reunidos partilhando histórias e conhecimentos plantados e colhidos “desde abaixo”.

“O principal objetivo do Autogestão é ser esse espaço de articulação e fortalecimento mútuo. Na troca de afetos e saberes, a gente vai encontrando os pontos comuns, aprende com a experiência do outro e da outra e fortalece as estratégias de construção de autonomia e poder a partir dos territórios”, explica Aline Lima, educadora popular e coordenadora do Instituto Pacs.

Morar e plantar

O curso começou com uma visita e mutirão na casa de Juju, agricultora agroecológica moradora de Magé, no Rio de Janeiro. Juju vive cercada de cerca de 300 espécies de árvores frutíferas, mato de comer (plantas não convencionais) ( raízes, temperos, ervas e plantas ornamentais. São três hectares que arrodeiam a casa modesta, oferecem sombra e dão guarnição para a Cozinha Colher de Pau, cozinha coletiva mantida pela agricultora e alimentada por outras companheiras da região. Dali saem 13 tipos de farinha produzidas a partir de diversas matérias primas que vão muito além da tradicional Mandioca (ou Aipim, como chamam no Rio), como o Jiló e o feijão. “E essa aqui vocês sabem o que é? A folha da Chaia tem formato de orelha de burro”, ensina Juju enquanto desafia o grupo no reconhecimento das espécies roçado afora.

Caminhando pelas pequenas trilhas de sua agrofloresta, a agricultora alertava os menos acostumados à lida a desviar da folha do abacaxi: “É preciso pisar de baixo pra cima. Se você subir a perna assim ele te corta.“Aqui estamos tudo cercado de veneno. Esse é o grande mal. Além disso, tem o machismo. Eu só fui ser reconhecida como agricultora quando entrei na Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ). Antes, ninguém aqui me via como agricultora”, relata.

Enquanto o almoço cheira e toma conta do oitão onde o grupo se reúne fazendo a fome se abancar, a conversa se aprofunda. Giovana Berti, da Rede Carioca de Agricultura Urbana (RCAU) e da Coletiva Popular de Mulheres da Zona Oeste, brilha os olhos ao ouvir Juju falar do plantar e colher. Faz anotações frenéticas de cada ensinamento. “Meu quintal é pequeno, mas as plantas já tão tomando conta de tudo até dentro de casa”, conta. Junto com outras duas mulheres, moradoras da região das Vargens, na Zona Oeste da capital fluminense, mantém um empreendimento solidário de culinária o qual batizaram de Mulheres de Aroeira.

“A maior estratégia do capital é separar o rural e o urbano. A nossa defesa do morar e plantar vem pra quebrar isso. Não adianta a prefeitura, o estado vir nos remover para apartamentos onde a gente não possa plantar. Nosso quintal, na cidade mesmo, é nosso alimento, é nossa farmácia”, defende Giovanna.

Maria de Lourdes do Carmo, conhecida como Maria dos Camelôs, fica instigada com a conversa. Para ela, que já morou em duas ocupações urbanas no Rio de Janeiro e é defensora do comércio informal, é preciso criar espaços coletivos de morar e de plantar porque no “cada um por si” a força é escassa.  “A gente precisa ver como quebrar a lógica do lote privado. Como produzir no rural e no urbano quebrando isso. Como a gente viu na Vila Autódromo, [Comunidade que sofreu remoção durante a realização dos Jogos Olímpicos em 2016] o Estado, a polícia, as empresas, quando querem destruir uma comunidade, eles começam nos espaços coletivos. Foi assim lá. A igreja caiu, depois a associação, depois a horta. E por quê?”, questiona.

Rita de Cássia, liderança do Movimento Sem Teto da Bahia (MSTB), ao ouvir uma referência à dona Penha, moradora e organizadora da resistência de Vila Autódromo que teve a casa derrubada em março de 2016, completa:

“A gente que tá em ocupação, a gente vê o papel das mulheres. É a gente que tá na linha de frente porque para nós a casa é muito importante. Quando a polícia chega, muito homem sai e quem fica? Quem sabe que tem filho pra botar dentro de casa, quem tem planta no quintal”, afirma.

A quebradeira de coco Rosenilde Costa, a Rosa, integrante da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais, completa: “Precisamos retomar a posse das nossas terras. Elas nunca tinham que ter deixado de ser nossas. Nessa batalha, o estar juntos, a dimensão da espiritualidade e dos afetos, é, para nós, muito fortalecedora e precisa ser levada em conta. Estar aqui entre vocês pra mim diz respeito a esse cuidado coletivo”, avalia a maranhense.

Após a visita à casa de Juju e à Cozinha Colher de Pau, a programação do curso seguiu com momentos de análise de conjuntura, trocas de experiências e trabalhos em grupo. Foi socializada uma apresentação contendo o acúmulo de quatro anos do processo que incluiu, além dos cursos anuais, oficinas territoriais intercâmbios e a formulação de mapas conceituais abarcando discussões sobre Territorialidade, Autogestão, Bem viver e Bem Comum, Agroecologia e Feminismo Comunitário.

 

Desde abaixo

A autogestão consiste na organização e gestão dos espaços de produção e convívio por todos envolvidos no processo. Sem divisões hierárquicas, as decisões devem ser tomadas em assembleias soberanas, diz um trecho do material de sistematização construído ao logo dos três anos de formação do projeto.

Ocupar e partilhar espaços e territórios e gestar dinâmicas de poder coletivas e horizontais é o desafio colocado. Na experiência do Juntas, campanha coletiva que disputou uma vaga à Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco, essa é uma questão latente. A candidatura integrada pela jornalista Carol Vergolino, a estudante de letras Joelma Carla, a ambulante Jô Lima, a professora Kátia Cunha e a advogada Robeyoncé Lima, a primeira transexual do Norte e Nordeste do país a usar o nome social na carteira da Ordem dos Advogados do Brasil, foi eleita para uma das 49 vagas da casa legislativa. Sob o codinome “Juntas”, o grupo, filiado ao PSOL, foi eleito com 39.175 votos e pretende dividir, além do gabinete e das decisões políticas, a remuneração e os benefícios financeiros. “O desafio das Juntas foi despersonalizar, coletivizar um espaço que é muito individual que é esse da política formal, da bucrocracia. A gente fez uma campanha coletiva, financiada coletivamente. Fizemos 4 vídeos que viralizaram e só no último deles trazemos a biografia de cada uma”, conta Jô.

Seguindo a mesma perspectiva, Joviano Mayer, advogado, integrante das Brigadas Populares de Belo Horizonte, partilhou a experiência da Ocupação do Luiz Estrela, prédio na capital mineira que já abrigou um manicômio infantil e que em 2013 foi ocupado e restaurado por um grupo de artistas e ativistas.

O edifício ocupado era um antigo hospital militar inaugurado em 1913, no qual o médico Juscelino Kubitschek havia trabalhado antes de ser prefeito de Belo Horizonte. Na década de 40, abrigou o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil e hoje, o Estrela abriga atividades culturais, formações artísticas e é abrigo e morada de quem mantém viva a história de Luiz Estrela, um morador de rua, performer e ativista gay que foi encontrado morto com indícios de espancamento naquele mesmo ano.

Em memória de Estrela e de tantos outros, a ocupação mantém viva e pulsante o sonho e a fé na festa de que é possível compartilhar e construir de maneira coletiva e autogestionada formas de vida que contrariam o que o capitalismo – e suas estruturas patriarcais e racistas -, nos impõe. Em meio a alguma roda de discussão do Autogestão nos Territórios, alguém sentenciou: “É preciso lembrar que o capitalismo não está em todos os territórios, por isso não controla todas as formas de sociabilidade. Ele não triunfou totalmente.  E enquanto estamos aqui, somos prova disso”. É preciso lembrar.

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