Fortalecer o protagonismo feminino: mulheres da Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro traçam estratégias para 2018

Cerca de 30 mulheres da região serrana e costa verde do estado, da zona metropolitana e de diversas regiões do município do Rio de Janeiro envolvidas com o plantio, a colheita, o beneficiamento, o comércio e as trocas solidárias agroecológicas reuniram-se nesta segunda-feira (16), no Rio de Janeiro, para traçar estratégias de fortalecimento e agenda comum. Elas integram o Grupo de Trabalho  Mulheres da Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ), fundado em 2013.

“Precisamos pensar formas de ampliar as trocas de saberes em outros formatos, como fazemos nas caravanas, mutirões. São momentos muito potentes e que nos fortalecem contra o machismo de fora mas também aquele que se perpetua dentro do movimento de agroecologia”, defendeu Marcelle Felippe, uma das integrantes da Articulação.

Para Aline Lima, coordenadora do Instituto Pacs que participou da fundação do GT, o protagonismo das mulheres na pauta da agroecologia já têm se ampliado muito desde a criação do espaço de articulação mas há desafios a serem superados sobretudo no que diz respeito à continuidade e ampliação das ações. “Precisamos pensar nossa auto-organização para que a gente não fique refém das agendas que vêm de cima pra baixo e que possamos alcançar outras companheiras que por exemplo têm dificuldade de se deslocar até o centro do Rio para participar de uma reunião como essa”, disse.   A produção de rifas, bingos, oficinas formativas, mutirões foram algumas ideias discutidas.

Além disso, a visibilidade do trabalho e produções agroecológicas das mulheres também foi um dos eixos destaque de ação do grupo. “A gente precisa divulgar o trabalho uma das outras. Espalhar nas redes, na Internet, falar por aí. Pensar numa cesta feminista agroecológica”, completou Ana Santos também integrante do GT.

Marielle Vive

 

O encontro seguiu ao longo do dia e também reafirmou a importância da participação das mulheres na construção do IV ENA – Encontro Nacional de Agroecologia, que acontece de 31 de maio a 3 de junho, em Belo Horizonte. Lembrando a memória e a luta de Marielle Franco – vereadora defensora dos direitos humanos executada há um mês no Rio de Janeiro  – o grupo referendou a carta produzida pela plenária de mulheres do Encontro Estadual de Agroecologia.

 

Carta da plenária de mulheres do Encontro Estadual de Agroecologia do Rio de Janeiro

Compreendemos as práticas do Bem Viver como construção e fortalecimento de
alternativas agroecológicas comprometidas com a natureza e a justiça social em cada
território. Portanto, falamos de uma bandeira anti-sistêmica, anti-racista e anti-patriarcal.
O fortalecimento de alternativas agroecológicas passa diretamente pelo
fortalecimento de cada pessoa que participa dessa construção, em respeito à harmonia
das relações sociais.
A produção em quintais, hortas, pesca e pequenas florestas cultivadas por
mulheres é agricultura, saúde e ancestralidade. O esforço coletivo em torno da
visibilização desse trabalho é estratégia urgente para garantir avanços da agroecologia
nos territórios.
Em uma sociedade monetarizada e patriarcal, a produção dessas mulheres nem
sempre gera renda, o que as coloca em uma posição de extrema vulnerabilidade
econômica. A proposição de políticas públicas voltadas para essa questão e feitas pela
comunidade agroecológica, como um todo, precisa ser prioridade.
Além disso, alertamos para a necessidade de difundir entre nós a compreensão de
algumas pautas anti-patriarcais:
Quando uma mulher é violentada ou tem sua liberdade cerceada pelo cônjuge ou
outro companheiro, esse é um problema de todos e todas.
Em espaços coletivos ou em casa, o tempo dedicado por uma mulher a trabalhos
considerados domésticos é um investimento no bem viver de todas as pessoas. Não
pensar alternativas à divisão sexual, racial e classista do trabalho reforça uma estrutura
social que colabora para a perpetuação de uma economia predatória e descomprometida
com o bem viver.
A multiplicação de iniciativas autogestionadas por mulheres enriquece o debate e
colabora para a resiliência do movimento agroecológico como um todo. Viva a Plenária
das Mulheres! (integra da Carta das Mulheres do IV EEARJ)

Paraty, outubro de 2017.

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