Economias emancipatórias para enfrentar o modelo de desenvolvimento atual

É possível repensar a economia sem questionar privilégios sociais históricos e a segregação socioeconômica e política de nossas cidades e campos? “Não!”, foi a resposta dos/das participantes do Seminário Outras Economias alternativas ao capitalismo e ao atual modelo de desenvolvimento, realizado entre os dias 4, 5 e 6 de dezembro, no Rio de Janeiro.

Durante três dias, coletivos, movimentos, entidades e organizações de nove estados (Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Pará e Rio Grande do Sul) se encontraram no Rio para debater alternativas no contexto de enfrentamento ao patriarcado e ao colonialismo, o combate direto ao racismo, e a luta social por justiça econômica e ambiental.

Na síntese do terceiro dia, após longo debate sobre de que forma a política macroeconômica e a dívida pública impactam os territórios, o coletivo de participantes tratou da necessidade de construção de economias emancipatórias frente ao atual modelo de desenvolvimento.

“O capitalismo tende a querer confundir termos como ‘economia de plataforma’ e ‘economia colaborativa’ como se fossem outras formas de economias. Mas tentar falar de outras economias sem enfrentar o racismo, o machismo e o colonialismo é reproduzir o mesmo sistema de opressões seculares que tem violado os territórios e, principalmente, o corpo das mulheres”, alertou Sandra Quintela, coordenadora-geral do Instituto Pacs.

O cruzamento entre os impactos à terra, aos territórios e aos corpos-territórios das mulheres foram um dos temas centrais do Encontro. Cris Faustino, da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, e Lorena Cabnal, feminista comunitária da Guatemala, conduziram uma roda de conversa com falas disparadoras sobre o cenário de machismo, racismo e colonialismo.

No primeiro dia de Seminário, Lorena Cabnal utilizou fios de lã para tecer e trocar saberes sobre a confluência de vários tipos de opressões patriarcais no nosso continente, denominado Abya Ayala pelos povos originários.

Lorena falou sobre o patriarcado ancestral indígena, o patriarcado tradicional africano e o patriarcado colonial europeu, que conforma uma “convergência patriarcal” na América Latina. “Não é por acaso que, neste lado do mundo, temos as taxas mais elevadas de feminicídio”, arrematou Lorena.

Veja as fotos do Seminário aqui

Seminário Outras Economias

 

 

 

Confira outras falas disparadoras

Lorena Cabnal

“Defender a terra e não defender o território dos corpos de mulheres e meninas é uma contradição”.

“Se você se indigna contra a mineração, contra os transgênicos e não se indigna contra o estupro do corpo de uma mulher, contra o abuso do corpo de uma menina, você quebrou a rede da vida”.

“Os feminismos que defendem corpos emancipados, mas que não falam de territórios emancipados, não têm consistência política”.

“O patriarcado não nasce da natureza. Nasce nos corpos e nas mentes. Por isso, gera poder sobre nossos corpos”.

 

Cris Faustino

“As reformas [em curso no Brasil] são racistas e misóginas porque são contrárias aos direitos conquistados por essas populações e as relegam ao lugar da perda”.

“As experiências de Outras Economias já estão sendo encaminhadas pelas mulheres, pois é a gente quem toma as dores e as soluções do mundo”.

“Numa situação de violência extremada, são as mulheres quem cuidam dos corpos doentes, sofridos, que ficam com os filhos da vizinha. Está mais do que na hora dos homens dividirem essa carga”.

Conheça mais sobre o feminismo comunitário territorial nestes dois vídeos [em espanhol]

Feminismo comunitario territorial

Pocas mujeres indígenas se atreven a denunciar el machismo. A Lorena la han desterrado por ello.

Publicado por AJ+ Español em Sábado, 25 de novembro de 2017

 

 

 

O Seminário também contou com uma práctica de sanación (prática de cura), facilitada por Lorena Cabnal e uma roda de conversa com o tema Campo e cidade: como enfrentar o debate atual nesses espaços de produção do viver?, que contou com a presença de Karina Kato (economista, professora do CPDA/UFRRJ), Sílvia Baptista (quilombola e pesquisadora militante) e Nívia Regina da Silvia (agrônoma e da coordenação do MST).

A ideia é que o encontro entre coletivos, movimentos, entidades e organizações não se encerre com o Seminário. Debates e proposições para uma “Outra Economia” continuam por meio do fortalecimento das redes Jubileu Sul e Atingidos/as pela Vale (AVs),

Depois de três dias de trocas de saberes e afetos, frutificou a certeza de que o conhecimento transformar só pode brotar desde abajo, ou seja, a partir de lutas e resistências cotidianas de coletivos que enfrentam o atual modelo de desenvolvimento expropriador e destruidor da terra e dos territórios, especialmente dos corpos das mulheres. Esse enfrentamento é essencial para a construção da nova sociedade que desejamos.

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