Movimentos sociais questionam utilização da “água como mercadoria que promove carência, doença e morte”

Por Guilherme Cavalli, da assessoria de comunicação do Conselho Indigenista Missionário 

“O povo sabe que precisa de um modo de convivência que promova o Bem Viver e aponte para a Terra Sem Males. Este processo será construído democraticamente desde as comunidades autogestionárias até o nível nacional e além”.

Os participantes do seminário “A água na perspectiva do Bem Viver”, organizado pelo Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS) e pelo Movimento de Educação de Base (MEB), divulgaram carta onde questionam o atual modelo “desenvolvimentista” que privatiza a água a grandes projetos. “A água como mercadoria concentra lucros e promove carência, doença e morte”, aponta o texto. “Megaprojetos limitam o acesso das populações à água, reduzem ou eliminam os territórios pesqueiros, privatizam, poluem os lençóis freáticos e salinizam as águas”.

Na última semana, de 16 a 18, representantes de movimentos e pastorais sociais se reuniram em Brasília (DF) para socializar informações sobre os biomas e construir estratégias para construção de um projeto de Bem Viver. Entre as ações repudiadas pelo grupo está o Fórum Mundial da Água (FMA), marcado para 18 a 23 de março de 2018, em Brasília. Segundo o texto, a iniciativa não oferece soluções efetivas “nem para a crise hídrica, nem para as mudanças climáticas”. “Governantes, grandes empresários e banqueiros têm apresentado falsas soluções, que mascaram sua responsabilidade pelo problema”. Paralelo ao evento patrocinado por multinacionais, na luta contra a farsa ambiental do FMA, propõe-se o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA)

Na carta divulgada no final do encontro, 50 organizações questionam iniciativas que utilizam dos recursos hídricos para o lucro “e causam morte de habitats, o biocídio e o hidrocídio”. “A expansão monopólica dos bancos privados na financeirização e no controle de ativos das empresas, o agronegócio, a mineração, a indústria e a infraestrutura energética (hídrica, termo e nuclear), voltados para os lucros e não para o atendimento das necessidades humanas”, assinala a nota.

Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam que 70% da utilização da água doce que circulam pelo ciclo hidrológico destina-se para a agricultura irrigada, atividades do agronegócio como monocultura e pecuária. 19% vão para indústrias hidrointensivas, como usinas nucleares, e grandes emissoras de CO2 como termelétricas, siderúrgicas e refinarias de petróleo

Há resistência!

O seminário mapeou iniciativas concretas de conservação dos biomas, de resistência a lógica de devastação imposto pelo “livre” mercado, “com sua ideologia do crescimento econômico ilimitado”. Reflorestamento, recuperação de áreas, produção de alimentos com agroflorestas, tratamento de resíduos, manejo sustentável dos mananciais foram alternativas presentes nos debates.

“São exemplos de combate heroico aos ataques do capital à biodiversidade, ao ambiente e à água, apoiado pelo Estado: os Munduruku e seus vizinhos ribeirinhos, na defesa do Tapajós; comunidades de Correntina e da Bacia do Paraguaçu (BA) contra o agro e hidronegócio; os quilombolas do Rio dos Macacos pelo acesso à água em Salvador (BA); populações do entorno do Cauipe/Pecém (CE), Porto do Suape (PE), ThyssenKrupp/Vale, Guapiaçu, Porto do Açu (RJ) e Piquiá de Baixo (MA) contra grandes complexos industriais; comunidades de Santa Quitéria (CE) e Caetité (BA) contra a expansão da mineração de urânio”.

“Essa nova visão de desenvolvimento que nos propõe o Bem Viver nos inspira a continuar atuando em defesa da democracia plena, contra a privatização da água e pela soberania territorial, alimentar, genética, hídrica e energética”, encerra o documento.

Leia aqui o documento

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