“Estamos trabalhando para manter a memória de pé”. Entrevista com Maria da Penha

No dia 30 de julho de 2016, vinte famílias da Vila Autódromo recebiam da Prefeitura do Rio a chave das novas casas, reconstruídas dentro da própria comunidade, depois de muita luta. Em 2009, a Vila abrigava 824 famílias. Muitas delas deixaram suas casas por não resistir à pressão da Prefeitura, que alegava precisar construir um acesso ao Parque Olímpico. A resistência das famílias mostrou que na cidade de negócios nem todos têm um preço. Maria da Penha Macena virou símbolo da luta da Vila ao ser fotografada sangrando após ser agredida pela Guarda Municipal. Testemunha ativa dessa luta, Penha conta que a história da comunidade foi interrompida, e as consequências das remoções são sentidas até hoje. Saiba mais nesta entrevista com Maria da Penha, da Vila Autódromo.

Como está a Vila Autódromo um ano depois das Olimpíadas?

Agora nós estamos reconstruindo nossas vidas, voltando ao normal.  Mas mesmo assim está muito difícil, porque mudou muito nossas vidas. A nossa história foi interrompida. Tem a questão do território, que mudou completamente. Está tudo, na verdade, em um processo de mudanças. Nessas mudanças, a gente está nos recuperando, recuperando nosso bem estar, nosso dia a dia, a nossa vida, a nossa Vila.

O que restou da Vila Autódromo foi uma vila pequena, de 20 casas. A história, a memória dela, que está presente, que estamos trabalhando para manter a memória de pé [Uma das casas deu lugar ao Museu das Remoções, onde aconteceu a entrevista]

Olhamos para algumas árvores e ainda nos lembramos da Vila antiga. Então isso nos conforta. Estamos aqui caminhando no dia a dia, passo a passo, tentando reconstruir, seguir a história da Vila de uma forma diferente, mas não é como antes. Mudou tudo. Tudo está mudado, mas a Vila ainda é a mesma.

A diferença é o aspecto novo: uma vila com casas diferentes, com estruturas diferentes, urbanizada, que era o sonho de cada morador dessa comunidade. Temos uma vila nova, pequena, com território totalmente mudado. Urbanizada, mas uma urbanização que chegou tarde demais. Essa urbanização foi muito violentada. Para que a gente conseguisse que ela chegasse, os nossos direitos foram muito violentados. Houve a violência dentro da comunidade. As pessoas que moravam aqui vêm visitar e voltam triste porque, na verdade, eles queriam estar aqui. Isso nos dói, porque é a nossa história que foi interrompida.

Vocês ainda têm contato com as famílias que foram embora?

Vamos contar por famílias. Tínhamos quase 700 famílias. Hoje são 20. Isso também mudou muito, mas a gente continua tendo contato. Algumas mais, outras menos. Tem família que faz tempo que a gente não vê. Mas tem família que volta todo domingo à Vila para participar da missa, por exemplo. Tem aquelas famílias que são fiéis à Capela daqui. Então todo domingo a gente se reencontra, vem matar a saudade, rever a Vila.

Então, a gente continua tendo esse laço. Poucas famílias, não são tantas.

Além da reconstrução do dia a dia, da vida, qual a luta hoje da Vila Autódromo? O que está faltando, o que vocês estão buscando?

Falta a segunda etapa da obra que já deveria ter sido feita pela Prefeitura. Nós temos um acordo com a Prefeitura. Na verdade, era para ter sido feita assim que terminassem as Olimpíadas, mas a gestão anterior [do ex-prefeito Eduardo Paes] foi nos enrolando porque em seguida vieram as eleições, eles perderam e, lógico, como sempre no nosso País, quando se perdem as eleições, deixam de cumprir o compromisso que tinham com o povo. Aí ficou para essa gestão nova e até agora a gestão nova não nos recebeu. O prefeito Crivella não nos recebeu. Tentamos várias vezes marcar, para que ele pudesse nos ouvir para falar sobre o que falta fazer na Vila Autódromo.

A segunda etapa da obra continua parada. É claro que vão dizer que não eles não têm dinheiro. Mas tem que ser feito. É um compromisso. Mesmo que demore. A luta continua. Nós queremos que seja feita toda a segunda parte da obra que foi combinada nesse acordo, que está escrito.

 

Leia mais sobre o tema das remoções na publicação “Rio Olímpico: Qual o legado um ano depois dos Jogos?”

 

E o quê, especificamente, falta fazer?

Falta: 1) A Associação de Moradores, que nós tínhamos, e eles derrubaram. E nós queremos de volta. Foi o que combinamos com Eduardo Paes. 2) Uma quadra de esportes. 3) Um espaço cultural, pois no período das remoções a gente descobriu que a cultura é muito importante para o dia a dia. 4) Uma praça para as crianças, que também não foi feita.

A área que temos em volta é uma ZEIS [Zona Especial de Interesse Social], a comunidade está dentro e podemos fazer outras coisas também, como um Horto, que é importante, pois estamos numa região boa, onde a agricultura é boa para ser cultivada; temos um espaço para fazer um espaço de reciclagem, que muda o dia a dia. Enfim, tem muita coisa a ser feita.

Falta também a documentação das casas, que eles [Prefeitura] ainda não deram.

O combinado era a gente entrar e em seguida receber o Habite-se [Documento emitido pela prefeitura que autoriza a ocupação de casa, edifício etc. recém-construído ou que sofreu obra], mas até agora eles não deram. Mas, na verdade, a nossa luta continua, pois a gente sabe que os governos não trabalham para todos, eles trabalham para uma minoria, e o pobre tem que continuar lutando para ter suas conquistas, para ter seus direitos respeitados. A gente tem que estar sempre lutando

 

Entrevista concedida a Caio Barbosa, em colaboração especial para o Instituto Pacs. Edição de Thiago Mendes/Instituto Pacs

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