A corrida de Edneida Freire entre as barreiras da Cidade Olímpica

Na vida da educadora de atletismo Edneida Freire, 51, há uma disputa ainda não vencida que transforma o semblante da amazonense. O sorriso largo dá lugar à indignação quando Edneida fala sobre o fechamento do Estádio de Atletismo Célio de Barros, casa de centenas de atletas no Rio, trancado ao acesso em 9 de janeiro de 2013.

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 Sem lugar fixo para treino, crianças e adolescentes acompanhados por Edneida improvisam espaços de corrida no campus do Fundão, na UFRJ. Foto: Aline Furtado/Pacs

Na Cidade Olímpica, o direito ao esporte vem sendo constantemente violado com o fechamento de equipamentos esportivos: uma disputa desleal que coloca atletas e treinadores de um lado e organizadores dos Jogos de 2016 do outro.

As muitas corridas, saltos e obstáculos superados estão no rosto e na história da ex-atleta, nascida em Manaus (AM). Foi lá onde se apaixonou pelo atletismo, ainda na escola. Em 1985, deixou a família para começar uma nova história no Rio de Janeiro (4.374 km de distância), para estudar e perseguir o sonho da carreira nas pistas.

foto2Edneida Freire adotou o Rio — e o Célio de Barros — como casa para seguir a carreira de atleta e, hoje, de educadora de atletismo. Foto: Aline Furtado/PACS

A trajetória de Edneida se cruzou com a do Estádio Célio de Barros há algum tempo. Em 1980, aos 16 anos, após fraturar o nariz e quebrar alguns dentes um dia antes da prova, Edneida foi campeã brasileira de pentatlo no estádio que anos mais tarde iria abraçar.

A conquista rendeu a ela uma viagem a onze cidades nos EUA e competições em Los Angeles e Miami, além do convite para cursar Educação Física com bolsa de estudos no Rio. Terminada a faculdade, ela passou a trabalhar com projetos sociais com crianças e adolescentes.

“Eu não saí mais do Célio de Barros. Minha história aqui no Rio de Janeiro foi toda lá. Eu dizia que era minha primeira casa. Ficava de segunda a segunda, praticamente”, detalha Edneida.

Por lá passavam cerca de 800 pessoas todos os dias, contabiliza, entre crianças de projetos sociais, atletas olímpicos e paralímpicos, que dividiam o treino em oito raias. A “casa do atletismo no Rio” amanheceu no dia 9 de janeiro de 2013 com um cadeado no portão. Equipamentos de treino, documentos dos atletas, tudo ficou lá dentro sem que ninguém fosse autorizado a entrar.

A pista onde Edneida treinava cerca de 80 crianças de 4 a 10 anos, considerados por ela como “filhos adotivos”, foi destruída para receber entulho da obra do Maracanã e depois foi asfaltada para dar lugar a um estacionamento. Do antigo centro esportivo só restaram as arquibancadas, às custas de liminares na Justiça e porque “é um tapume para a sujeira que estão fazendo”, argumenta Edneida.

“A gente aguentou aqueles buracos quilométricos, aquelas máquinas. A gente competiu com aquela poeira desgraçada, porque a gente esperava que depois da obra do Maracanã fosse melhorar para a gente. A gente treinou com máquinas gigantescas dentro da pista. Eles foram afunilando a gente. Foi assim nossa tortura. Porque ninguém queria sair de lá, porque aquilo era nosso”, resume Edneida.

Para ela, o fechamento do Célio de Barros representou uma grande violação de direitos humanos, já que ocorreu sem o mínimo diálogo. Todos foram postos literalmente no “olho da rua” e, três anos depois, atletas, treinadores, crianças e adolescentes continuam perambulando sem local fixo. De início, o Governo do Estado ofereceu como espaço de treino o Estádio Olímpico do Engenhão, sede do clube de futebol Botafogo. Foram dois meses disputando a pista com os jogadores do clube. Em dias de partida de futebol, os treinos não eram permitidos. Para usar o banheiro, era preciso contar com a boa vontade do dono de um bar, do lado de fora do Estádio.

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