Quilombo Cafundá Astrogilda celebra Dia da Consciência Negra

Caminhada ecológica e histórica fez parte da programação do dia de festa no Quilombo Cafundá Astrogilda

Caminhada ecológica e histórica fez parte da programação do dia festivo – Foto de Julia GImenez

No ’20 de Novembro’ deste ano, quilombolas, agricultorxs, artesãxs e companheirxs de caminhada do Cafundá Astrogilda dançaram e celebraram a cultura negra. A comunidade vive em Vargem Grande, no Maciço da Pedra Branca

A artesã Maria Lúcia Mesquita Martins até hoje segue a voz da mãe. É porque ela é filha de Dona Natalina, que, por sua vez, é uma das filhas de Astrogilda Ferreira da Rosa. E Astrogilda é a negra que procurou abrigo com o marido no meio da mata do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX, e fincou o pé na terra, acolheu gente fugida das senzalas como vizinhas e companheiras de vida e de luta.

Astrogilda é a pessoa cuja sabedoria fez nascer Quilombo Cafundá Astrogilda, onde hoje Maria Lúcia mora, e onde descendentes, vizinhxs e companheirxs de vida e de luta celebraram, dia 20 de novembro de 2015, mais um Dia da Consciência Negra, o segundo desde que a comunidade quilombola foi reconhecida pelo Governo Federal.

Nas conversas de Lúcia e nas de seu primo, o técnico de tecnologia da informação Alexandre Silva, cada pedaço de chão dentro do quilombo onde nasceram tem história. E eles não se acanham na hora de compartilhar. O caminho para se chegar ao mirante, por exemplo, é o Caminho de Aparício, porque foi Aparício quem viveu à beira daquela trilha por tanto tempo.

E, lá de cima da pedra com vista para o bairro de Vargem Grande, cada pedaço de mata em cima do maciço é um ponto no mapa gravado dentro da cabeça de Alexandre: “Um dia, um pessoal que morava ali, tá vendo?”, e aponta para uma profusão de árvores em cima do monte. “Um dia eles vieram pedir as curas da minha avó, meu vô contou…”, completa o neto de Astrogilda e Celso. Depois desanda a desenrolar uma das muitas histórias de que é feita a oralidade preciosa daquela comunidade.

As atividades do dia envolveram trilha ecológica e histórica, visita à casa da matriarca e festa com capoeira, jongo, maculelê, feijoada, feira agroecológica e artesã. Tendo começado na hora do almoço, a música e a dança entraram na noite com apresentações espontâneas dxs presentes.

A roda de dança do Riqueza da Cor teve coco e samba

A roda de dança puxada pelo grupo Riqueza da Cor teve apresentações de coco, maculelê, capoeira e samba – Foto de Janaína Pinto

Além de quilombolas, vizinhxs, instituições e movimentos sociais amigos, uma turma de estudantes do Colégio Estadual Teófilo Moreira da Costa também apareceu para celebrar a consciência negra. O colégio fica em Vargem Grande, próximo à comunidade, e tem desenvolvido atividades com atores sociais do entorno para pensar uma educação à luz do desenvolvimento local.

As Mulheres do Quilombo

Também compôs o dia a exposição As Mulheres do Quilombo, construída por agricultoras de Vargem Grande em conjunto com o PACS. O objetivo da atividade foi resgatar a história da comunidade  a partir do olhar e das histórias de vida das mulheres, como Dona Natalina, Dona Dromice, Dona Jacira, Deusdedite e tantas outras.

Emilia Jomalinis, da equipe do PACS, comenta as celebrações do dia 20 como  marcos na “historia de luta do povo negro, que acontece ainda hoje. Nesse sentido, os moradores e moradoras do Cafundá Astrogilda são guardiões e guardiãs de memórias e saberes ancestrais do povo negro como, por exemplo, os relacionados à agricultura”.

Foi justamente alguns desses conhecimentos que As Mulheres do Quilombo procurou resgatar. Nos relatos feitos para compor a exposição, mulheres da comunidade lembraram como avós e mães curavam as enfermidades de crianças e demais membros da família. Não era comum descer o maciço e esperar na fila de um hospital público. Pequenas enfermidades eram saradas com banhos e rezas. Um exemplo era o banho de pitanga, que rapidamente fazia a febre passar.

Também era habitual a umbanda. Ainda de acordo com mulheres da comunidade, as cerimônias religiosas aconteciam em vários locais do quilombo e atraíam gente de longe. Eram muitas as rezadeiras, como Dona Arlinda, Dona Natália e a própria Astrogilda.

Comunidades quilombolas cariocas

O Cafundá Astrogilda está em Vargem Grande e é um dos quatro quilombos que existem dentro do perímetro urbano da cidade do Rio de Janeiro. Dois estão no Parque Estadual da Pedra Branca e foram reconhecidos apenas no ano passado pela Fundação Cultural Palmares: a comunidade quilombola Camorim, no Maciço da Pedra Branca, em Camorim; e a Cafundá Astrogilda, em Vargem Grande. As outras estão na Pedra do Sal e na Sacopã.

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O Comitê de Mulheres da Zona Oeste, bem como outros movimentos sociais, marcou presença na festa – Foto de Julia GImenez

 

2 comentários sobre “Quilombo Cafundá Astrogilda celebra Dia da Consciência Negra

  1. Pingback: Ato de combate à violência contra a mulher e pelo dia da Consciência Negra ocupa calçadão de Campo Grande | PACS

  2. Que lugar maravilhoso, me identifiquei, gostaria muito de ir, uma visita seria só por um convite, ou para conhecer é só ir? ☺❤

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