Fim das remoções: Agricultura urbana em risco na Vila Autódromo

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Casa marcada para remoção na Vila Autódromo. Foto: Thiago Mendes

A visita do Encontro Nacional de Agricultura Urbana (Enau) à Vila Autódromo neste sábado (24/10) foi marcada por indignação e solidariedade diante da destruição truculenta de mais cinco casas na comunidade, perpetrada na sexta-feira (23/10) pela Prefeitura do Rio.

Os participantes do Enau se depararam com o relato desolado da moradora Mariza do Amor Divino, 65. Ela tinha ido a uma consulta médica na última sexta e, ao retornar, encontrou a casa onde morava destruída. Mariza havia deixado todos os pertences, comida pronta no fogão e todos os medicamentos, inclusive o de tratamento de diabetes e depressão na casa. Os móveis foram levados para um depósito da Prefeitura, mas pequenos pertences, inclusive uma economia em dinheiro, ficou perdida entre os escombros. Mariza não tem familiares próximos e continua sem ter para onde ir, abrigada graças ao amparo dos vizinhos.

Os moradores da Vila Autódromo vivem em clima constante de medo, sentimento que Guine Ramos descreveu em texto recente em seu blog como “terrorismo urbano”. No sábado (24/10), moradoras e moradores entraram em alerta com a proximidade dos tapumes das obras do Parque Olímpico à mesa de pingue-pongue, construída pelas próprias moradoras e moradores. Tendo em vista o histórico de desrespeito e falta de diálogo com a comunidade, o medo era de que a mesa fosse derrubada a qualquer momento. Ainda no sábado, depois da queixa de moradores e moradores, mobilizados junto à mesa, a cerca foi deslocada. Não se sabe até quando.

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Penha, moradora, protesta em cima da mesa de ping-pong construída pela comunidade e ameaçada pelas obras do Parque Olímpico/ Foto: Thiago Mendes

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Crianças se divertem após os responsáveis pela obra afastarem os tapumes/ Foto: Thiago Mendes

A postura truculenta da Prefeitura foi repudiada por participantes da visita, que tomaram conhecimento das constantes violações de direitos humanos, incluindo a violação do direito à cidade. Nesse sentido, as remoções forçadas na Vila Autódromo põem em risco a agricultura, a pesca e todo o modo de vida tradicional que marca a história da região. Algumas moradoras apontam a ligação da comunidade com raízes quilombolas, inclusive. A retirada gradual de moradoras e moradores do território limitam e rompem importantes cadeias de desenvolvimento de plantio em quintais da Vila Autódromo, prática fortalecedora de laços comunitários, desenvolvimento e manutenção da biodiversidade local e do protagonismo das mulheres.

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Dona Denise, moradora da Vila Autódromo, em seu quintal de árvores frutíferas e plantas medicinais. “Eu sempre converso com as minhas plantas”, diz/ Foto: Thiago Mendes

Belos e verdes quintais como os das moradores Maria da Penha e Denise dos Santos, que propagam vida, alimento e cura na Vila Autódromo, estão em risco com a destruição das moradias pela Prefeitura e pelo modelo de desenvolvimento imposto pelos megaeventos esportivos. A apreensão é constante, e mexe com a vida de todas e todas que construíram na Vila Autódromo um território permeado de natureza, memória, sonhos e laços.

Tem agricultura na cidade, sim! A resistência está fincada em sólidas raízes, em troncos que crescem abraçando e protegendo telhados e quintais de luta. A Vila Autódromo resiste! 

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