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Informativo
Nº
21 - Abril / Junho 2008
Baía
nem para peixe, nem para pescador
Por
Márcia Shoo
As
embarcações modernas da empresa alemã
ThyssenKrupp e da parcialmente estrangeira Vale atravessaram
o oceano e desembocaram às margens da Baía de
Sepetiba, dando início a um imenso estrago social
e ambiental
bem longe de suas casas, com a instalação da bilionária
Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA).
“Dentro da Baía, em linha reta até o cais, já
são quatro quilômetros
de extensão ocupada pelo consórcio. O projeto não
foi aceito no país deles devido ao altíssimo
grau de poluição. O Brasil é muito bonzinho e
aceitou. Soltam um pó tão perigoso que abre
buracos na lataria de carros. É por isso que uma
outra fábrica [a empresa coreana Hyundai] desistiu de se instalar aqui”, resume
o nível da situação o pescador artesanal Luiz
Carlos, que vem lutando ao lado de uma comunidade
de mais de oito mil pescadores na região para
manter o equilíbrio natural das águas, os peixes
e a sobrevivência daquela população, formada
também por artesãos, pequenos criadores de gado
e famílias de agricultores, muitas removidas do
local onde se instalou o canteiro de obras do
complexo siderúrgico.
Em maio, Luiz Carlos, que na maior parte da vida
navegou a remo, e só nos últimos anos
modernizou-se com uma pequena embarcação a
motor, também se locomoveu para muito distante de
sua casa, em Jesuítas – comunidade construída
no final da década de 1950 ao redor da Baía
pelos próprios pescadores – onde ele também
nasceu. Convidado pelos movimentos sociais a
testemunhar no TPP, o Tribunal Permanente dos
Povos, Luiz Carlos embarcou pelos ares até Lima,
Peru, em busca de um julgamento crítico, justo e
efetivo sobre a atuação do consórcio
ThyssenKrupp/Vale na Zona Oeste do Rio. No
Tribunal, que aconteceu como parte da Cúpula dos
Povos1 deste ano, o pescador falou a um círculo
de juristas, intelectuais, ativistas de direitos
humanos e jornalistas do mundo inteiro,
denunciando a mortandade de peixes, caranguejos,
jacarés, capivaras e lontras em sua região;
testemunhando as necessidades porque vêm passando
seus milhares de companheiros de pesca;
evidenciando os danos ecológicos à Baía de
Sepetiba e à vegetação do entorno; desvelando o
abarroamento de pequenas embarcações, e a morte
de 83 trabalhadores, entre pescadores e funcionários
da própria CSA, por conta da maquinaria e das
atividades da obra, desde que ela começou. De
cerca de 20 casos apresentados na Cúpula dos
Povos sobre práticas ilegais de transnacionais
européias no continente latino-americano, sete
eram brasileiros.
Logo
no início da obra, Luiz Carlos havia organizado
um protesto pacífico em frente ao terreno.
Reivindicava o desconhecimento da população
local sobre a chegada do projeto, cujos responsáveis,
segundo ele, não procuraram em momento algum a
comunidade para tratar do assunto, e falsificavam
assinaturas que comprovavam o acesso da comunidade
às informações. Os dirigentes da CSA pediram aos
pescadores uma proposta de ressarcimento por sete
meses de pesca prejudicada, que deveria ser
cumprido até março do ano passado. De lá para cá,
o máximo que Luiz Carlos conseguiu do consórcio
foram 100 reais de indenização – a metade do
que havia pedido – por um corte de mais de
200 metros
em sua rede de pesca, que ficou agarrada à hélice
de uma das embarcações da CSA. “Não vamos
conseguir vetar a obra, só um milagre. Vamos
ficar sem nossa área saudável de trabalho.
Queremos embarcações melhores para pescar a
maiores distâncias”, já que os peixes não
aparecem mais naquela região, devido aos
rebocadores e às tubulações da dragagem de
30 metros
de profundidade realizada pela obra, que sugam os
animais aquáticos e as redes a mais de
300 metros
de distância. “Saíamos de madrugada na época
da tainha e voltávamos à tarde com quinhentos
quilos, às vezes até uma tonelada de peixe. Pra
quem ficou na pesca está difícil. Muitos se
inscreveram para trabalhar na Siderúrgica, por
falta de opção, mas quando se descobre que são
pescadores, são descartados por haver processos
contra a fábrica através das colônias.”
Quase toda a vida Luiz Carlos se locomove sobre
uma cadeira de rodas ou em cima de um barco. Se
aos dois anos teve uma paralisia infantil irreversível,
aos sete descobriu-se pescador para sempre. Neto
do português que o colocou no caminho das águas
e dos peixes do Rio Guandu-Mirim, no Rio de
Janeiro, e de uma legítima índia, segundo ele,
“pega no laço” das terras de Mangaratiba,
litoral sul do Estado, Luiz Carlos é um genuíno
caboclo, fruto daquela antiga história trazida há
mais de quinhentos anos pelas marés, e ancorada
até hoje por essas terras. A história colonial
das embarcações européias, saqueadoras de
nossas riquezas continentais, que é responsável
também por constituir o que somos – o povo do
qual eu, você e o pescador Luiz Carlos fazemos
parte – permanece a mesma história, fortalecida
por um modelo de desenvolvimento baseado na dependência
estrangeira e no seu sistema de exploração, no
poder do lucro, na destruição de ecossistemas e
na destruição deste mesmo povo que a história
criou.
1
A
Cúpula dos Povos, realizada no mês de maio em
Lima, no Peru, reuniu milhares de representantes
de organizações e movimentos sociais
latino-americanos e europeus para discutir modelos
de desenvolvimento econômico e de integração
regional alternativos aos propostos pelos 60 países
presentes na Cúpula União Européia / América
Latina e Caribe, que aconteceu ao mesmo tempo e na
mesma cidade. O TPP ficou estabelecido na Carta de
Direitos dos Povos, em 1976, na Argélia.
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